Todo Mundo, Menos Eu
Flávio Mattes

Dimas costa /Flávio Mattes
Chamamé

Chegou um dia no pago mui perfumada e faceira
Morena meiga e trigueira, mais linda do que uma flor
Prenda desta que ai vê-la por mais taura que seja
Até a alma fraqueja e mata a gente de amor.
E foi um deus nos acuda a indiada se alvoroçou
Até um velho que a olhou de amores enlouqueceu
Todo mundo andava louco e o seu amor implorava
Todo mundo disputava, todo mundo menos eu!

Quando passava a catita num meneio encantador
O índio mais peleador gemia de amor contido
Se ela lhe dava um riso aquele nunca esquecia
E a todo mundo dizia que estava de amor perdido.
Perdido andavam todos por tal encanto brejeiro
Cada qual era o primeiro querer um sorriso seu
As vezes por desconfiança um índio se atracava
E todo mundo peleava, todo mundo menos eu.

Um dia o patrão da estância a levou para um ranchito
Nunca mais viveu solito, pois em grande romaria
Gaúchos, velhos e moços, não contendo seus amores
Iam lá lhe levar flores e outros mimos todo dia
Enfeitavam aquele pouso de ramos verdes plantados
Como brinde disfarçados ao novo lar que nasceu
Mas na verdade queria vê-la cada vez mais bela
Todo mundo era dela, todo mundo menos eu.

E assim gozando aventura Dona de tudo
Aquele olhar de veludo trouxe tristeza para o pago
Tristeza, talvez ventura, pois até valia a pena
Sofrer por uma morena na esperança de um afago
Um dia porem a diaba se alçou assim num reponte
Ah, meu deus aquela gente parece que enlouqueceu
Muito índio se matou de tanto, tanto se matou
Todo mundo chorava, todo mundo menos eu.

Mas o tempo esse tirana que destrói até memória
Foi apagando da historia aquele caso de amor
Voltou a paz no rincão, o riso de novo impera
No rancho hoje tapera ninguém mais planta uma flor
Seu vulto não mais recordam e dela ninguém mais fala
Se alguém lembra logo cala provando que já esqueceu
Pois a linda flor trigueira que eu nunca vira tão bela
Todo mundo esqueceu dela, todo mundo menos eu!