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    A quem, por ventura, ainda não ocorreu de reencontrar alguém da sua época, que há muitos anos não via, que tem exatamente a mesma idade que a sua, mas que aparenta estar bem mais velho – a nós nos parece sempre que o tempo está sendo mais cruel com o outro.

    Pois bem, em recente viagem a Porto Alegre, trinquei o segundo pré-molar direito superior, ao morder com vontade uma costela gorda e encontrar um osso mais duro que o meu dente. Vi-me compelido a procurar por um dentista de emergência e acabei no consultório de uma profissional indicada pelo meu convênio. Ainda na sala de espera, observei o nome completo da dentista em seu diploma da URGS, afixado à parede, com a data de 1989. Senti um calafrio que me percorreu a espinha dorsal até o cox, pois o nome da dita cuja profissional coincidia na íntegra com o nome de uma linda morena, que fora minha colega no segundo grau, por quem eu nutrira uma paixão secreta, que povoara por anos as minhas adolescentes fantasias, mas com quem eu jamais voltara a me encontrar havia mais de 30 anos.

    Que bruta coincidência! Que pegadinha do destino! Seria ela o amor secreto da minha adolescência?  Fora necessário eu trincar um dente num entrevero com uma costela para reencontrar a dama das minhas adolescentes fantasias? Talvez apenas uma coincidência, mas o nome coincidia em tudo, até mesmo nos dígrafos.

    Meu coração pulsava de forma descontroladamente acelerada, quando a porta do consultório se abriu e a ele fui conduzido pela recepcionista. Iria rever a mais bela morena que já povoara a minha imaginação, depois de mais de três décadas de ausência, sem quaisquer notícias.

    Ao adentrar, porém, ao consultório, afastei totalmente esses pensamentos. Desfez-se rapidamente a doce fantasia. Não era a minha grande paixão. Aquela senhora dentista que iria me atender era uma velha, grisalha, feia, toda enrugada, uns vinte e cinco quilos acima do peso normal e aparentando, no mínimo, uns vinte anos a mais do que eu. Não, não era o meu grande amor da fase teen, dos meus anos dourados.

    Mas fiquei matutando. Formou-se em Odontologia, pela URGS, 1989. Deveria ter idade semelhante à minha. Mas não tem. É, pelo mínimo, duas décadas mais velha do que eu. Talvez odontologia tenha sido sua segunda graduação. Talvez seja retardatária, refratária, talvez tenha feito o vestibular já madura, veterana ou xirua, como se diz no meu Rio Grande. Mas, e o nome? Coincidência total. Como pode? Homônimo, certamente.

    Ela aplicou a anestesia, usou algum cimento dental ou amálgama, apenas como curativo paliativo, até eu chegar em Brasília e tratar-me definitivamente com o meu dentista, Dr. Sandro Madsen, o qual, diga-se de passagem, é o único dentista no Brasil especialista em próteses para morder costelas. Se ela conversou comigo ao longo do procedimento, não sei. Fiquei totalmente absorto, perdido em meus pensamentos, ensimesmado em doces lembranças da morena trigueira e roliça, esbelta e perfumada, com todos os encantos com os quais a natureza generosamente a dotara. De olhos brilhantes, rosto prendado, cabeleira abundante a cair sobre os ombros. A formosura de seu tronco, mais curvilíneo que a Rodovia São Vendelino, generoso de encantos, de porte sereno e andar suave, como uma garça de ternura e elegância, desfilava pela sala de aula, como se contasse dinheiro na frente de pobres.

    – Está pronto, senhor. Pode abrir os olhos.

    Despertou-me ela, com uma voz rouca, grave e insuportável. Subitamente, como despencando de um penhasco, abri os olhos, caindo na dura realidade e retornando de meus devaneios. Após aliviar-me na cuspideira e limpar-me os beiços com um guardanapo descartável, ainda ajeitando a gravata, embora incrédulo em uma possível resposta positiva, arrisquei-me a perguntar-lhe.

    – Me perdoe pela indiscrição, doutora, mas de qual cidade a senhora é natural?

    “Sou de Carlos Barbosa, na serra gaúcha”, respondeu-me ela com indisfarçável orgulho, por pertencer àquele privilegiado pedacinho de Europa encravado no pé da serra. Muita coincidência, pensei eu. Mas apenas coincidência. Talvez parente da moça. As famílias italianas costumam homenagear parentes, tios, avós e até mesmo os padrinhos, atribuindo seus nomes aos afilhados. Afinal, meu próprio nome fora uma homenagem do meu pai, que Deus o guarde, ao meu padrinho de batismo, Raul Giaccomoni, de saudosa memória. Quem sabe seja ela irmã da mãe e, talvez, tia e madrinha da minha antiga amada secreta. Ainda assim, arrisquei avançar:

    – Em qual colégio a senhora fez o seu segundo grau?

    “Colégio Santa Rosa”, respondeu imediatamente, com ainda mais orgulho e mais vaidade indisfarçáveis.

    Outra coincidência. Não é possível. Todavia, compreensível. Afinal, era, à época, o único colégio particular do município.

    – Em qual ano se formou no segundo grau? Ainda me aventurei a questionar.

    “Em 1983. Mas por que tantas perguntas? ”

    Impossível. Aquilo foi como uma martelada em minha moleira. Era ela mesma. Mas como pudera mudar tanto em tão poucos anos? Eu, afinal, não mudei quase nada e aparento ser uns vinte anos mais jovem do que ela, apesar de minha protuberância abdominal e de meus cabelos rebeldes que insistem em, aos poucos, me abandonar. Não pode ser. Como o tempo fora cruel e implacável com ela. Ela está irreconhecível. Misericórdia, meu Deus! Ela deve ter fumado muito na juventude, ter bebido em demasia, deve ter parido uma dúzia de filhos, não frequenta academia, não conhece dermatologista. Filtro solar, nem pensar. E deve comer meia tonelada por dia.

    “Desculpe-me, senhor, mas deixou-me curiosa com suas tantas perguntas”, despertou-me ela novamente.

    – Caramba! Incrível! Não estou acreditando, mas é que…. É que… Meu Deus, quanto tempo! É que a senhora foi da minha classe, durante o segundo grau, no Colégio Santa Rosa, de Carlos Barbosa. Lembra-se de mim?

    E não é que aquela velha grisalha, feia, gorda, esclerosada, flácida, lazarenta e pelancuda teve o despautério de me perguntar:

    “Qual a matéria, mesmo, que o senhor lecionava? ”

    Não respondi. Paguei o procedimento à recepcionista com meu cartão de débito, desci silenciosamente, com as duas mãos nos bolsos, contemplando-me no espelho do elevador. Entrei no primeiro bar e pedi um conhaque Dreher, dose dupla.

Bebi de um único talagaço.

Raul Canal