Há na língua portuguesa e no linguajar universal expressões pejorativas que, por si só, já fazem um prejulgamento e estigmatizam coisas, fatos, pessoas e comportamentos. Os termos constantes do título são apenas alguns exemplos. Nenhum laboratório no mundo fabrica ou comercializa agrotóxicos. O que é fabricado e comercializado são DEFENSIVOS AGRÍCOLAS. Alguém, todavia, em algum momento da história, utilizou o termo agrotóxicos e essa expressão é que perdurou.

Está na moda, hoje em dia, consumir produtos orgânicos, os quais são livres de agrotóxicos (e não de defensivos agrícolas). Imagine-se adquirindo na feira um produto em que na embalagem conste “esse produto contém os seguintes agrotóxicos…”. Você já pensaria nos trabalhadores rurais que morrerão de câncer, nos mananciais contaminados e nos efeitos desastrosos à sua saúde e ao seu organismo que aquele produto irá causar. Muito diferente seria se o produto contivesse apenas “defensivos agrícolas” e não agrotóxicos.

Outra expressão estigmatizante e indefensável é a tal da infecção hospitalar. Veja que não se trata de infecção cirúrgica ou pós-cirúrgica, nem viral ou bacteriana, mas muito pior: infecção HOSPITALAR. Quem causou a infecção? A própria expressão, por si só, já fornece a resposta: o hospital. Então, se o hospital causou a infecção, deve ser responsabilizado por ela e, em consequência, indenizar o paciente ou seus familiais.

E o que dizer da expressão ERRO MÉDICO? As estatísticas dizem que nos Estados Unidos, o ERRO MÉDICO é a quarta maior causa de mortes. Lá, dizem as pesquisas, são cometidos doze milhões de erros médicos por ano. No Brasil, as estatísticas denunciam setecentos mil erros médicos todos os anos. Vejam que não se diz que doze milhões de pacientes estadunidenses e setecentos mil brasileiros foram vítimas de intercorrências ou de resultados indesejados em um tratamento médico, mas sim que foram vítimas de erros médicos.

No dia 06 de maio de 2016, durante um jogo do campeonato romeno de futebol, o jogador Patrick Ekeng morreu de parada cardíaca. O Ministro de Estado do Interior, responsável pela pasta de segurança, se apressou em revelar à imprensa que o motivo da morte fora ERRO MÉDICO. Ora, a motivação que levou o ministro a afirmar que houvera erro médico foi o fato de os desfibriladores existentes na ambulância que conduziu o atleta ao hospital estarem com as baterias vencidas e, por isso, não funcionaram. A causa da morte, portanto, para o ministro e para a imprensa, não foram as condições pregressas do atleta, o seu sobre-esforço físico, eventuais cardiopatias pré-existentes, possíveis drogas consumidas antes do jogo e nem mesmo as baterias descarregadas dos desfibriladores que poderiam tê-lo ressuscitado. A causa mortis fora fulminantemente decretada pela autoridade política: erro médico.

Recentemente, na cidade de Niterói, uma paciente faleceu, em casa, de parada cardiorrespiratória, algumas horas após haver realizado um preenchimento com ácido haliurônico para correção de “bigode chinês”. A família e a imprensa carioca prontamente apontaram o erro médico como causa da morte. Posteriormente, se soube que a mesma era tabagista compulsiva e que se auto-injentava Potenay B12, polivitamínico utilizado para cavalos, à base de sulfato de mefentermina, que eleva a pressão sanguínea, acelera os batimentos cardíacos e estimula o apetite.

Provavelmente, tal substância, aliada ao tabagismo, poderia ter provocado a parada cardiorrespiratória. Mesmo, porém, que a paciente não usasse tais substâncias, tendo ela realizado um procedimento médico simples e falecido algumas horas depois, onde estaria o erro médico? E se ela houvesse sido morta por atropelamento, ao atravessar a rua, saindo da clínica algumas horas após o procedimento, também seria erro médico? Analogia grosseira, porém, pertinente.

O problema está na contaminação estigmatizante da expressão idiomática, utilizada sem critérios e de forma pejorativa e preconceituosa.

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